• Gabriel Neves

Artigo | Camila Machado leva discurso pós-ideológico a sério


Camila Machado (PP), candidata a prefeita e atual vice-prefeita de Sirinhaém. Créditos: redes sociais

"Devemos desarmar os palanques", disse-me a candidata Camila Machado (PP), numa manhã ensolarada, na Barra de Sirinhaém, após ser questionada sobre seus gestos políticos durante a campanha eleitoral. A frase saiu de uma entrevista que ela gentilmente me cedeu, quando eu estava fazendo uma apuração para outro veículo.


Camila começou a usar constantemente essa expressão, quando, por algumas vezes, foi indagada sobre sua filiação ideológica. "Como você se posiciona no panorama político nacional?"; "qual sua ideologia?". Essas questões têm sido enfrentadas por Camila com o velho e repetido "devemos desarmar os palanques", reivindicando o pragmatismo para trazer "eficiência de gestão".


O raciocínio dela é de que, uma vez no governo, vai precisar dialogar com outras esferas e grupos para levar recursos e projetos a Sirinhaém, incluindo o próprio governo federal, sob o comando do presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro (sem partido).


Camila leva esse discurso, que pode ser considerado pós-ideológico, a ferro e fogo. Pós-ideológico porque ela considera a questão gerencial do governo como prioridade, menosprezando embates com projetos retrógrados de sociedade. Não parece ser problemático, para ela, conversar com um defensor de tortura e de torturador, como o Bolsonaro, ao mesmo tempo em que fala de humanização dos serviços públicos. Não parece ser problemático, para ela, aliar-se a fundamentalistas religiosos no mesmo instante em que pretende levar uma maior liberdade para as mulheres da cidade.


Ela não vê como questões problemáticas devido à ideia que tem do que é "governabilidade".


O mais intrigante ainda é ela manter ao mesmo tempo na sua equipe de campanha uma candidata do Partido Novo na cidade do Recife, que já foi presidente da juventude estadual do DEM, partido neoliberal, e o presidente do Partido Comunista do Brasil em Sirinhaém, o notável advogado Ricardo Campos. Dr. Ricardo, como é conhecido, fez oposição à ditadura militar, chegando a integrar um partido na clandestinidade. O Novo é um dos partidos mais fiéis ao governo federal em votações do Congresso Nacional. É um dissenso manter duas figuras como essas numa mesma equipe.


Camila raramente se posiciona sobre questões nacionais de alta relevância. A candidata se posicionou sobre a aprovação do Fundeb, em julho, mas, ao mesmo tempo, não se colocou na defesa do SUS, quando o governo federal assinou decreto autorizando estudos para conceder à iniciativa privada as UBSs (Unidades Básicas de Saúde). Também não se posicionou no caso da dupla violência sofrida por Mariana Ferrer, a física e a jurídica, que teve a aberração do "estupro culposo", termo didático empregado pelo The Intercept Brasil.


Créditos: redes sociais

A pós-política e o discurso pós-ideológico


Isso que Camila vem fazendo tem nome. É conhecido no meio acadêmico como pós-política. Trago aqui como referência a socióloga Sabrina Fernandes, que se baseia no filósofo esloveno Islavoj Zizek. É um fenômeno de despolitização que acaba reforçando estruturas injustas que estão incrustadas na nossa sociedade.


Quando a candidata afirma que segue o pragmatismo visando a eficiência de gestão e a governabilidade, na verdade ela está dizendo que as discussões sobre projeto de sociedade são submissas à questão gerencial. É um pensamento baseado numa razão instrumentalizada, nos termos de Max Horkheimer, em que não se discute mais os princípios basilares da sociedade, somente os aceita. Aceita e gerencia o que tem, do que jeito que está.


Para Sabrina Fernandes, "a pós-política é um tipo de despolitização que age no campo do senso comum como uma forma de pós-ideologia, na qual assuntos relacionados a status político, social e econômico são efetivamente gerenciados". Esse gerenciamento oculta a necessidade de promover lutas e embates entre distintos projetos de sociedade, que estão constantemente em jogo e interferem visceralmente na vida das pessoas. Esses projetos de sociedade não são colocados apenas por candidaturas mas por setores sociais.


A pós-política de esquerda, que é o caso específico de Camila, tem como um de seus traços a "busca por relevância através da “palatabilidade”, e não da radicalidade", segundo Fernandes. Isto é, seu discurso e o simbolismo empregados devem estar em consonância com o que é palatável de se ver e de se ouvir. Por isso, essa formatação do comportamento.


A candidata evita, assim, conflitos e antagonismos necessários por não serem palatáveis.


Trazendo para a questão local, nesse caminho, Camila Machado provavelmente ficará limitada quanto ao questionamento, por exemplo, do papel da Usina Trapiche dentro do território sirinhaense. A visão do senso comum é de que a Usina é necessária por trazer emprego e renda. O senso comum não questiona, por exemplo, a concentração de terra, o uso de agrotóxicos, a poluição ambiental, os lucros e o servilismo ao mercado internacional.


Sobre a pós-ideologia, a socióloga Sabrina Fernandes afirma o seguinte: "a pós-ideologia, é claro, é uma farsa altamente ideológica criada para legitimar tanto posições conservadoras do senso comum (exemplo: Escola Sem Partido) quanto visões neoliberais de eficiência e governança de mercado sob a presunção de neutralidade (exemplo: propostas do Banco Mundial para serviços públicos)".


Não estou dizendo que Camila Machado, de maneira consciente, esteja criando uma "farsa altamente ideológica". Reconheço nela uma vontade legítima e real de fazer diferente na cidade. Mas, o discurso pós-ideológico coube bem no contexto em que ela está inserida no momento.


Camila teve que sair de um partido em que militou por 17 anos, teve que fazer alianças com setores conservadores e retrógrados, tudo isso para enfrentar, à altura, uma máquina poderosa. Os partidos de esquerda, como ela mesma falou, "não me dariam a garantia eleitoral de estar nesta disputa". É um contexto complexo e leva a candidata a adotar determinado tipo de discurso e ter determinadas medidas, num âmbito em que a política é feita com elevado grau de pragmatismo.

©2018 by O Pasquim. Todos os direitos reservados.