• Gabriel Neves

Artigo - Alianças de Camila Machado podem comprometer o único governo de esquerda possível na cidade



O grupo político encabeçado pela senhora Camila Machado (PP) é o que há de mais próximo à esquerda na cidade de Sirinhaém. A ligação da família Machado com os arraesistas e algumas pessoas importantes que compõe o grupo político são indicadores dessa aproximação com os ideais de justiça social, igualdade, direitos humanos e emancipação.


As histórias que circulam no Sindicato de Sirinhaém sobre a luta dos trabalhadores rurais no século passado e o apoio que Dr. Alberto Machado, na época como prefeito de Sirinhaém, deu aos trabalhadores são elementos que, sem dúvidas, colocam o grupo político no campo daqueles que estão ao lado do povo em momentos de aperto e de contradições acirradas.


Acontece que as alianças e os gestos que o grupo vem fazendo podem comprometer um possível governo de esquerda da vice-prefeita. Os acenos a setores conservadores da política pernambucana, a composição de partidos para disputar as eleições proporcionais, a participação da pré-candidata em programas ligados ao setor evangélico-conservador, algumas pessoas que provavelmente vão subir no seu palanque. Tudo isso preocupa aqueles e aquelas que, esperando a sua vitória, acreditam numa gestão comprometida com os ideais mais avançados e modernos da humanidade.


Pelo que se diz, ela tem os dois pés fincados na luta pela justiça social, mas as alianças e o comportamento nessa pré-campanha podem resultar num deslocamento. O simbolismo empregado na comunicação política também tem uma contrapartida material e concreta, mesmo que se imagine a possibilidade de contornar essas alianças e esses símbolos caso chegue no comando do executivo municipal.


As alianças são feitas para que todos os lados envolvidos saiam ganhando de alguma forma, porque têm algo em comum. Não há como imaginar que o apoio de conservadores à senhora Camila Machado não retornará nada a esse setor atrasado. Em se consumando o apoio dos conservadores (e até de reacionários) e a vitória de Machado nas eleições deste ano, ela irá fortalecer o que há de mais retrógrado na política pernambucana? Mesmo que ela não queira, é provável que isso aconteça.


Camila Machado, quando se pronuncia publicamente, fala sempre em "humanização dos serviços públicos", "emancipação", "escuta popular". Até que ponto essas questões, que são absolutamente importantes, são compatíveis com alguns setores para os quais a pré-candidata está acenando?


Ao ler este artigo, os apoiadores e as apoiadoras da pré-candidata podem rebater alegando a minha juventude como uma barreira para entender a "real política". Mas eu garanto que, além desse argumento ser débil, os questionamentos aqui levantados são consistentes e levantam pontos problemáticos na pré-campanha da vice-prefeita. Tenho certeza que seu grupo político pensa sobre isso. E eu tenho a obrigação de levantar esses problemas.


Até que ponto o pragmatismo político permite seguir na trilha do que se entende ser o certo a se fazer? Até que ponto se deve flexibilizar o programa político para chegar ao poder? Até que ponto um possível governo de esquerda poderá ser comprometido em virtude das alianças costuradas no período eleitoral?


Eu poderia continuar. Poderia falar sobre a atuação real do partido Progressistas (PP), da pré-candidata, a nível local e nacional. Poderia falar da composição conservadora e até reacionária do partido. Mas, desta vez, vou ficar por aqui.


A vice-prefeita diz que não faz política olhando para o retrovisor. Eu diria, aproveitando a metáfora dela, que olhar para o retrovisor da história pode servir para não cometer erros.

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