• Gabriel Neves

O Maracastelo pede licença




Fundado em 2014 por um grupo de amigas e amigos, o Maracastelo é um coletivo que, por meio da “cultura tradicional”, principalmente o maracatu, atua na educação e na política, não a institucionalizada ou a partidária, mas a política em seu sentido amplo.


A “cultura tradicional”, como nomeiam as integrantes, não é mero instrumento para atingir fins políticos e educacionais, mas algo voltado também a si mesmo, no sentido de valorização. Acontece que, naturalmente, política e educação acabam sendo envolvidas.


Em estudo antropológico realizado por Luiza Oliveira Chaves, da Universidade de Brasília (UnB), o Coletivo foi definido “como um grupo que opera uma apropriação seletiva da cultura popular específica, dependente de seu contexto local e de suas interpretações e relações com outros sujeitos coletivos”.


Para quem olha por dentro, o Maracastelo é “algo que vai além do entendimento racional”, é um instrumento “mediador em tudo”, um “ativismo real concreto, a partir do fazer artístico” ou, até mesmo, “um processo de aprendizagem”.


É melhor que deixemos que as integrantes falem por si mesmas:



O início

Ângela Gaeta, uma das lideranças do grupo, veio de São Paulo para João Pessoa no ano de 2013. Com ela, veio também toda uma “vivência” com o maracatu de baque virado e uma potência de transformar o mundo ao seu redor.


Essa potência se manifestou, nos primeiros momentos, em fazer os amigos e as amigas mais próximos se interessarem pelo maracatu. O que Marcella Loureiro, que estava nesse grupo inicial, fala é que “Ângela tinha uma experiência longa com maracatu e contava a experiência pra gente, e ficou um grupo de amigos querendo aprender aquilo lá também, porque a gente sabia que ela ensinava”.


A partir de então, um grupo com seis pessoas é formado. Os instrumentos necessários já faziam parte da vida de algumas dessas pessoas. Para começar a vivenciar o maracatu, restava o lugar. Foi necessário ir atrás de algum local público, porque não dava para fazer na própria casa dos integrantes: “era muita zoada”, com disse Marcella.


Ângela sentava com amigos e amigas num bar, no Castelo Branco, para tomar uma cerveja. Em frente ao bar, havia um prédio abandonado com a sigla “AMCAB”. Já circulava no imaginário de Ângela uma sambada de cavalo marinho naquele local. Porém, a sigla “AMCAB” não deixava evidente o que era o prédio abandonado. Ninguém sabia o que significava. Os moradores do bairro falavam diferentes nomes, sem que houvesse um consenso.


A necessidade de se ter um local para colocar em prática as oficinas de maracatu se somou ao interesse de haver uma intervenção num local público. O resultado? A Associação dos Moradores do Castelo Branco (AMCAB), que estava abandonada, tornou-se um espaço criador, um elo entre a cultura tradicional e a cidade, um local onde as pessoas poderiam ir e, gratuitamente, aprender a tocar alfaia, abê, tarol...


O Maracastelo foi formado a partir do interesse de vivenciar a cultura tradicional, de saber como “o tambor bate lá dentro” e de intervir publicamente para que as pessoas de maneira geral pudessem ter acesso àquela vivência.



As dimensões

A cultura, a educação e a política são partes inatas, intrínsecas, próprias do Maracastelo e atravessam toda a vivência do coletivo.


Por meio do movimento de ocupação da Associação do Moradores do Castelo Branco (AMCAB), intitulado #ocupeamcabcultural, o Maracastelo ofereceu oficinas de maracatu de 2014 a 2017, aos sábados. Com a saída do Coletivo da Associação, que era uma sede fixa, as oficinas passaram a existir em locais variados: primeiro na Casa da Pólvora e depois na Escola João Goulart, que fica no bairro do Castelo Branco III. A dimensão cultural do Coletivo se manifesta nas oficinas (que também têm caráter educativo), nas apresentações e na organização de eventos. Nesta última, há como exemplo duas edições do notável Encontro de Batuques da Paraíba. O Maracastelo é Ponto de Cultura, desde o final de 2017, e conseguiu dar “uma organizada na casa”, como afirma Ângela, depois de ganhar o Prêmio Culturas Populares de 2017, do extinto Ministério da Cultura, que permitiu o Coletivo fazer camisetas, ter mais instrumentos (e produzir boa parte deles), gravar faixas em estúdio e ver a possibilidade de gravar um teaser.


Uma outra dimensão que atravessa o Coletivo é a educacional. Com um projeto de extensão aprovado na Universidade Federal da Paraíba, o grupo fomenta o ensino da cultura afro-brasileira, em espaços formais e não-formais de educação, fazendo valer a Lei 10.639, de 2003, que trata da obrigatoriedade do ensino da história e da cultura afro-brasileiras nas escolas. Apesar de ter essa aproximação com a educação, o Coletivo tem uma relação ambígua com a Universidade: por um lado, entendem que é necessária a ocupação dos espaços, a partir da cultura tradicional; por outro, olham a Universidade como um espaço limitador da vivência, onde a cultura tradicional é vista com um certo distanciamento.


A política é uma terceira característica presente no Maracastelo. Ângela afirma que a proposta é formar cidadãos, o que indica a preocupação com a cidade, com a consciência das pessoas, com as relações sociais e com tudo que envolve os sujeitos. Os exemplos que as integrantes dão para justificar a dimensão política são parecidos: há uma mulher em posição de liderança, a cultura é afro-brasileira, o grupo é majoritariamente LGBT, é jovem e há uma formação política.




As três dimensões não se separam. Elas se apresentam entrelaçadas, ligadas, inter-relacionadas e contribuem para que o Maracastelo seja uma potência transformadora da realidade.


Com espírito coletivo, o grupo vai produzindo cultura, educando pessoas e fomentando política, no seu sentido mais genuíno. O Maracastelo está cumprindo a sua missão.


Conheça algumas pessoas que integram o Maracastelo:


Renã Ramos


Marcella Loureiro


Jinarla Pereira


Ângela Gaeta



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